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 Era o terceiro e último dia do Goiânia Noise Festival, no Centro Cultural Martim Cererê, em dezembro de 2004. Para quem não sabe, trata-se do maior festival de rock independente do país. Enquanto este que vos escreve e o outro poppyto, Fabrício Santos, lutávamos pela última oportunidade de entrevistar os super-ocupados Fabrício Nobre (vocal da banda MQN e chefão do selo Monstro Discos, que organiza o evento) e Léo Razuc (assessor de imprensa da gravadora), a passagem de som dos paulistanos performáticos do Jumbo Elektro surgiu como uma grande surpresa.
Entrevista com Fabrício e Léo feitas, os integrantes do Jumbo aceitaram o convite de conversar em exclusivo com o PoppyCorn, o que era a concretização de uma das principais pautas do site para o festival. Passagem de som encerrada, este escriba aproveitou a carona na van até o hotel onde o grupo estava hospedado (e não só eles como a grande maioria das outras atrações do Noise) e iniciou a conversa assim que o transporte saiu do Martim Cererê.
A van já estava em movimento e os integrantes do Jumbo acomodados. Eles passavam de mão em mão a página da Ilustrada (caderno de cultura e entretenimento da Folha de S. Paulo) onde figuravam entre as sugestões de melhores presentes para o Natal daquele ano com o cd que, apesar do nome, é o debute fonográfico da banda: Freak To Meet You – The Very Best of Jumbo Elektro (2004).
 A entrevista começou depois de feitas as apresentações e ditas as hilárias características de cada “personagem” do grupo. O Jumbo Elektro é formado, por exemplo, por supostos diretor de filme pornô, vilão de seriado japonês, general soviético e um combatente da libertação de Quebec – todos com poderes, é preciso lembrar.
O Jumbo é formado por Frito Sampler/Tatá Aeroplano (voz, brinquedos e extintor), General Elektrik/Günter Sarfert (voz e vocoder), Dimas Turbo/Dudu Tsuda (synth, casiotone, beats e vozes), Hans Sakamura/Isidoro Cobra (baixo e vozes), Lê Cheval/Daniel Setti (bateria), Dr. Gory/Fernando Maranho (guitarra e vozes), Otto van der Vander/Marcelo Ozorio (guitarra e vozes).
Formação da banda
O Jumbo Elektro é uma reunião de amigos e esse foi o grande segredo para fazer uma coisa bem à vontade, explica Frito Sampler. Dr. Gory, Dimas Turbo e Frito são do Cérebro Eletrônico, outra notória banda do underground paulistano, e depois dos ensaios começaram a criar “canções freak, coisas diferentes e engraçadas”, diz Frito. A ânsia por fazer música dos integrantes que viriam a se juntar ao Jumbo acabou por acelerar o lançamento da banda. O grupo tem quase dois anos, apesar de todos se conhecerem de longa data.
O CD
“[O disco] foi gravado sem pressa, ficamos mais ou menos um ano, um ano e pouco fazendo as gravações, devagar, porque todos tinham outros trampos e precisavam dar um gás neles e ao mesmo tempo no cd”. A produção ficou por conta de Arthur Joly (ou Tão Tse King), a pessoa que deu início ao selo Reco Head e trabalhou no último disco da Elza Soares. A Tratore distribui Freak To Meet You….
Tatá comenta que algumas das músicas que estão no cd foram feitas logo no primeiro ensaio completo, mas que já havia algumas prontas anteriormente. A gravação da entrevista não permitiu identificar, mas este que vos escreve suspeita de que foi de General Eletric a explicação sobre a origem das músicas:
“Tatá [Frito Sampler] e Dudu [Dimas Turbo] tinham idéia de fazer umas músicas mais new wave, mais elétrico, que não se encaixavam muito com o Cérebro Eletrônico. Então o Jumbo veio para suprir isso. Seria a banda mais eletro punk. É um som difícil de catalogar, com muitas diferenças e citações do mundo pop”.
Influências
 E quais seriam elas? Uma avalanche: Devo, “Blondie é foda”, Depeche Mode, Radiohead, Blur, New Order, The Cure, Kraftwerk, Ramones, Beatles, “coisas brasileiras, Karnark, Pato Fu, Mutantes”, Brigitte Bardot, Chico Anísio, Dona Zica, Sérginho Malandro, Fofão “e outros palhaços famosos”. Peço para que eles sejam mais específicos. “Tem aquele lá, o Carequinha. O Carequinha é famoso”. Changeman e Jaspion também são influências e, graças ao meu pedido, eles cantam a música de abertura do seriado do campeão da justiça. O editor do PoppyCorn, Jairo de Souza, aguarda ansioso as centenas de e-mails dos internautas para liberar a faixa em mp3 dessa preciosidade...
Repercussão e mais bobeiras
Os integrantes do Jumbo disseram não se sentir intimidados pelo show do Noise, com um público notadamente apreciador do rock básico sem firulas, pois já tiveram a experiência em São Paulo, onde conseguiram conquistar até o público “mais chato, entendido de música. No fim, todos abraçam a causa freak”.
“É contagiante. Geralmente eles [o público] se apaixonam pelo Dimas Turbo, principalmente aqueles homens que não gostam exatamente de mulheres. A performance dele é libidinosa. Antes o nome era Timas Turbo, mas aí teve que mudar. Porém, gostamos de mulheres. Todos nós. Deixamos claro pra não colar uma galera na gente aí (risos)”.
Figurino para o show
“A transformação é meio radical, uns se transformam e outros são transformistas. Também não é fantasia carnavalesca. Tem uma certa sutileza. A gente tira a roupa também, pode se preparar. Tem ‘nego’ peludo e é uma surpresa, você vai descobrir na hora. Tem ‘nego’ sem pêlo também.”
Projetos paralelos
“As nossas outras bandas são irmãs e estão no mesmo catálogo da nossa gravadora [Reco Head]. Lê Cheval e Osorio [Otto van der Vander] também tem a banda Labo. São vários projetos musicais e o Jumbo é mais um”. Recentemente, Frito Sampler se reuniu com alguns notáveis da cena rock paulistana (como Thunderbird e integrantes das bandas Borderlinerz e Biônica) na Orquestra Júpiteriana, uma homenagem à já lendária banda Júpiter Maçã.
A entrevista é interrompida quando a van chega ao hotel, e é retomada lá dentro. Tento agilizar as perguntas para conseguir carona em qualquer van que esteja a caminho do Martim Cererê, para não perder o começo da maratona de bandas daquele dia de Goiânia Noise. Quando já estamos todos sentados, alguém anuncia no gravador, “segunda parte”.
Infiltração na mídia
 Dada a facilidade com que a mídia abria espaço para o Jumbo Elektro na época (inclusive o programa Fantástico, da Rede Globo, apresentou uma matéria com a banda indicando-os como uma das revelações para 2005), os integrantes do grupo ficaram receosos de responder quando questionados se tinham amigos nas redações espalhadas pelo país afora, mas confirmaram que sim, apesar de explicar que trata-se da mesma galera que acompanha a cena alternativa e que já conhecia a banda.
“Alguns jornalistas viram o show do Jumbo Elektro e depois entraram em contato, foi algo natural”, comentam. “Mas corre a boca miúda de que alguém da banda deu uma faturada em alguém da Folha [de S. Paulo]. Ninguém sabe quem é, ninguém quer assumir”, brincam.
A entrevista termina sob o signo da gastronomia. O pequi, fruta característica de Goiânia, aparece no papo e é chamada de “tecno-fruta”, “fruta de futuro”. Consigo a van de volta para o Martim Cererê e, se não me engano, volto para o Noise com os integrantes do Astronautas e do Daniel Belleza & os Corações em Fúria.
O SHOW
Tratava-se do primeiro show do Jumbo Elektro fora do estado de São Paulo, a estréia da banda no circuito de festivais independentes. A platéia chegou meio sem saber do que se tratava. Logo, todos tiveram a atenção captada e era inevitável o sorriso estampado no rosto das pessoas, principalmente por causa das atuações marcantes de Dimas Turbo, Frito Sampler, General Elektrik e Otto van der Vander. Na hora de tocar não há brincadeira. No fim, foi um dos shows mais competentes e redondos do festival. Destaque para a concentração no camarim antes da apresentação, quando integrantes do Jumbo, todos já fantasiados, brincavam de roda com alguns componentes do Daniel Belleza e os Corações em Fúria.
O CD
Freak To Meet You – The Very Best of Jumbo Elektro é, como o subtítulo diz na capa, uma compilação competente de roupagens musicais resgatadas da década de 80, algumas até tidas como bregas, mas que na mão do combo de músicos vira uma receita infalível para agradar ao gosto de todo tipo de público e ainda conquistar o coração da crítica. Tudo com uma pitada de humor inteligentíssimo. Indispensável! 30/04/2005
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