|
A Intérprete chega aos cinemas com a pompa de ser a primeira produção cinematográfica autorizada a filmar nos interiores da ONU, ostentação esta que chega a ser maior que o fato de Sydney Pollack voltar a dirigir um filme desde 1999, quando fez Destinos Cruzados. Os outros chamarizes do longa que se igualam à locação da ONU são Sean Penn e Nicole Kidman, dois atores extremamente talentosos e recentes vencedores do Oscar (Kidman em As Horas/2003, Penn em Sobre Meninos e Lobos/2004), feições renomadas da atualidade contracenando durante boa parte da duração. Se um grande número de pessoas não está nem aí para a ONU na telona, Penn e Kidman são motivos suficientes para atrair platéia. Pollack, embora diretor competente, é discreto demais para manter seu nome fervendo na cabeça do espectador comum, mesmo tendo dirigido dois títulos consideravelmente conhecidos: Tootsie e A Firma.
 Apenas bom filme, A Intérprete fica aquém de sua capacidade de teasing. Além das características já mencionadas acima, a produção ainda apresentava um trailer muito bom, tenso, um tanto provocador, desses que parecem prometer “o filme político do ano”, vindo de um Pollack bem sério. “A verdade não precisa de tradução”, uma das frases de efeito utilizadas para seduzir público, instiga a partir do contexto dessa história onde uma intérprete americana (Nicole Kidman) escuta o que não deveria escutar numa ONU até então supostamente vazia durante a noite. O que ela não deveria escutar é uma possível tentativa de assassinato, sendo que a vítima em potencial é um importante chefe de estado africano. Silvia, a tal intérprete, passa a ser visada e protegida, mais especificamente pelo agente Tobin Keller (Sean Penn), já que é a única que escutou o possível plano de atentado, cuja execução deverá ocorrer em plena ONU, e também uma das poucas que poderiam ter compreendido o diálogo, uma vez que os indivíduos conversaram em raro dialeto africano.
É mais um desses exemplos que mostram o óbvio: trailer é uma coisa, filme é outra. Ei, o trailer de O Pesadelo era bem interessante, e o produto mesmo é mais fraco que coice de muriçoca. A Intérprete pode até querer ser, mas não é o thriller político do ano, e nem da metade dessa década; só que, sejamos justos, tem qualidade e colhões o suficiente para ser respeitado como obra que pisa em cenário tão delicado. Fica a dúvida, por exemplo, se explorar a estrutura da ONU, tão respeitosamente filmada por Pollack, não seria jogada estratégica de publicidade ou então um intencional “paradoxo” narrativo (morte criminosa em plena Organização das Nações Unidas?). A verdade é que acaba funcionando das duas maneiras. Menos mal.
 Pollack, com uma veia quase tão conspiratória quanto a de A Firma, até tenta deixar o filme realmente interessante desde o início (vide introdução), mas A Intérprete traz uma dessas histórias em que se deve desenvolver o complicado exercício de misturar dramas coletivos (conflitos entre nações, política, etc) com drama individuais (os dramas familiares de Silvia e Keller), e há pontos perdidos em ambos os lados, talvez mais neste último. O passado pessoal do agente e o presente pessoal da intérprete quase encostam em pieguismos, escapando por detalhes e pela força das atuações de Sean e Nicole (estupidamente linda), atores que por vezes passam a impressão de estarem carregando o filme sozinhos. Sozinhos mesmo, porque Catherine Keener é absurdamente desaproveitada, sem direito a sequer um diálogo de uns dois minutos com Sean Penn que poderia entregar alguma nesga de dramaticidade e dimensionalidade a sua personagem. Isso, é, uma, vergonha!
Penn continua esse ator extraordinário que é, digno de nota até em coisas babacas como Dogma do Amor. O personagem de Penn em A Intérprete tem uma primeira aparição bem depressiva, a ponto de ensinar como não esperar uma JukeBox terminar de tocar a música para começar outra, e sua situação é meio “eu não deveria estar trabalhando no momento, deveria tirar algumas semanas de folga”. Acontece que Penn é tão cavalo na arte de atuar, que consegue passar simultaneamente a sensação de que é confiável em sua competência profissional e também que sua vida está desmoronando (se já não desmoronou). É quase um Jack Bauer. E Kidman está de volta, she’s back, em desempenho que requisita maturidade, personagem relativamente complexa, recuperando-se da estupidez que fez ao topar estrelar Mulheres Perfeitas (depois veio o filme-blefe Reencarnação, mas não há o que se queixar no que se refere a sua performance).
 Não obstante as boas interpretações e a direção competente, ritmo um tanto arrastado faz-se presente em algumas partes, talvez entregando um pouco da indecisão de Pollack quanto a abrangência da obra: concentrar-se mais no terreno político ou nos dois principais focos humanos da trama? Equilibrar dois pontos assim, ainda mais num thriller político, demanda atenção e cautela de sobra (e já que citei Jack Bauer, vamos continuar: a série 24 Horas faz isso com maestria, mas lá são 24 episódios de 45 minutos cada). Pollack cambaleia e sofre alguma escoriações durante o percurso, é vero, mas chega. Há, no entanto, uma seqüência orquestrada com grande inspiração por Pollack, em um ônibus: são vários personagens, ação paralela, montagem cuidadosa, ponto alto da ótima trilha de James Newton Howard (uma das melhores coisas de A Intérprete), um crescendo intenso e praticamente mordaz.
Existe também mensagem de paz, claro, em A Intérprete. É pacifista assumido, quiçá direto demais nesse quesito, o que não significa necessariamente que seja agressivo. Aliás, é possível que tenha faltado justamente isso, um pouco mais de investidas. A Intérprete joga por vitória, e se contenta com uma magra. Por outro lado, é um filme que, por causa de seu (con)texto e conclusão coerente (pés no chão), tem chances de crescer, dependendo de como e quando fatos referentes ao assunto/tema acontecerem – ou não.
Filme visto no Alvorada Cinema
Cine Stadium Center - Shopping Flamboyant
Abril/2005 - Goiânia, GO 01/05/2005
|