Lou Reed: feminino e brasileiro?
Por: Jairo de Souza, Eddie Schäfer
 
 
Hotel Continental, terceiro disco solo de Stela Campos, mescla rock, MPB e eletrônica num trabalho onde as letras ganham força ao retratarem o cotidiano das grandes cidades e suas personagens melancólicas.
Ela, que já foi chamada por Chico Science como a "Billie Holiday de garagem", confronta sem pudor um violão folk com samples, teclados com scratches, conduzindo guitarras e violoncelos junto à sonoridades complexas que representam a metrópole.
Assim é Hotel Continental: um passeio psicodélico por uma cidade de vários aspectos, pessoas e mundos a serem conhecidos.
Nesta entrevista, Stela aborda o atual cenário da música brasileira, sua forma de trabalho, inspirações, influências e se há remorso por não receber o conhecimento merecido.
 
 
PoppyCorn --> Seu trabalho é uma união de estilos dentro de um conceito. Uma hora temos uma faixa folk, outra nos deparamos com rock e, em seguida, variações eletrônicas detalhistas. De onde vem esta variedade artística?
Stela Campos: Eu me interesso por várias vertentes da música pop e acho importante não criar barreiras entre elas. Consigo me identificar, por exemplo, com o jazz e o punk, ou com a eletrônica e o folk, tudo com a mesma intensidade. Essas influências acabam transparecendo de forma natural nos meus discos.
 
PoppyCorn --> Como classifica sua música? Os rótulos lhe agradam?
Stela Campos: Acho que eu faço parte de uma corrente de artistas que não estão filiados a nenhuma doutrina musical específica. Portanto, não acho que exista uma definição muito precisa para o meu som. Mas também respeito os músicos que trabalham dentro de um determinado gênero e, ainda assim, conseguem ser inovadores, ou, no mínimo, honestos. Acho que não deve haver regras para a criatividade. Se o cara quiser seguir os moldes da surf music ou do rock n' roll sessentista, que siga. Pode ficar legal. Nem todos têm que ser ecléticos. Senão isso também se torna um fator limitante.
 
PoppyCorn --> A vida na metrópole é um tema recorrente do seu trabalho. Para muitos, a metrópole é um local ao mesmo tempo frenético e entediante, mas por que para você é uma grande fonte de inspiração?
Stela Campos: Para falar a verdade, não sei porquê se tornou um tema tão recorrente. Simplesmente aconteceu. Nesse disco eu e o Luciano Buarque (que faz as letras comigo) pensamos em diversificar mais a temática. Até conseguimos (em "Cassino", "Câmera" e "Girl From 33", por exemplo), mas fica óbvio que o cenário urbano acabou prevalecendo. Talvez seja o fato de que, quando sentamos para escrever em casa, as únicas coisas que vemos são quatro paredes e uma folha de papel. A maioria dos versos desse disco é formada por imagens que colhemos pela rua. Mas isso não é uma regra para nós e eu não sei até que ponto continuaremos a explorar esse tema.
 
PoppyCorn --> Comparando com Fim de Semana, seu trabalho anterior, notamos que a eletrônica continua presente mas não ganha mais todo o destaque. Hotel Continental poderia ser considerado um disco de rock e isso se dá por que?
Stela Campos: Com certeza tem um espírito mais rock n' roll, uma presença maior de guitarras, mas não sei se dá para dizer que é um disco de rock. Em todo caso, busquei essa sonoridade porque senti falta da barulheira. Eu tinha uma banda chamada Lara Hanouska que era bastante influenciada pelo Velvet, My Bloody Valentine, Sonic Youth, etc. No meu trabalho solo, eu ampliei minhas referências e me distanciei do formato guitar band, mas ainda continuo sendo fã de bandas como essas.
 
PoppyCorn --> Em Hotel Continental, há personagens ("Edna M." e "Cris") melancólicos em suas composições. Além de referenciar temas como desempregados em bares, aposentados, solidão, rotina....; Onde que fica a boa vida na metrópole?
Stela Campos: A boa vida na metrópole fica justamente na ausência desses elementos. Está em você poder se divertir com os amigos e a família sem notar a existência desses problemas. Mas eles estão por aí e não dá para ignorá-los. Se apontamos tanto para esses temas é porquê eles são obstáculos na nossa vida.
 
PoppyCorn --> Não só o tema urbano mas também o seu jeito pausado de cantar nos faz lembrar o estilo de compor de Lou Reed. Nesse novo trabalho, essa referência fica ainda mais evidente com canções como "Girl From 33". O Lou Reed é mesmo uma grande inspiração para você e a Stela Campos se considera a Lou Reed de São Paulo?
Stela Campos: Lou Reed sempre me inspirou, mesmo nos álbuns considerados mais fracos de sua carreira. Já me compararam outras vezes a ele e eu tomo isto como um grande elogio. Mas não tenho a pretensão de ser a Lou Reed de São Paulo.
 
PoppyCorn --> Mesmo com o sucesso do Afrociberdelia, do Chico Science e a Nação Zumbi, poucos conhecem nomes como Fellini e Stela Campos e, muito menos, esse disco tão preciso que foi recentemente relançado pela Outros Discos, o Funziona Senza Vapori. O descaso pelas raízes da música brasileira é muito grande. A culpa disso é do público que não se interessa ou da mídia que fecha os próprios olhos?
Stela Campos: Acho que esse é um problema bem complexo. A culpa não é só do público e da mídia, mas de uma combinação de vários fatores. E esse descaso com artistas mais obscuros não acontece só no Brasil. Se perguntarem para os adolescentes americanos de hoje quem é Daniel Johnston, a grande maioria não saberá responder. No entanto, todos conhecem 50 Cent e J-Lo. As grandes estações de rádio de todo mundo tocam música pop descartável. A diferença é que artistas do primeiro mundo como Daniel Johnston, cuja popularidade nos EUA equivaleria à do Funziona aqui no Brasil, têm oportunidades para sobreviver de música e gozar do status cult, apenas tocando em pequenos circuitos, em rádios alternativas, etc. Aqui, os músicos mais desconhecidos têm 10 vezes mais dificuldades para continuar.
 
PoppyCorn --> Quais são as suas influências?
Stela Campos: Eu gosto de muitas coisas, de diferentes épocas, de diferentes estilos. Tudo acaba me influenciando de alguma forma. Mas de vez em quando descubro um artista que causa maior impacto dentro da minha música. Isso já aconteceu com, entre outros, o Velvet Underground, Angelo Badalamenti, Serge Gainsbourg e, mais recentemente, com o Bruce Haack.
 
PoppyCorn --> De alguma forma existe algum remorso por não receber o reconhecimento merecido?
Stela Campos: Não, porque tenho consciência de que reconhecimento não tem nada a ver com talento. Claro que eu gostaria de poder viver só de música. Mas também não vou perder o meu sono por conta disso. Para mim, o mais gratificante é o processo de compor e de gravar. Se a música em que estou trabalhando está me entusiasmando, sei que algum ouvinte irá partilhar do mesmo sentimento. E isso é o que realmente importa.
 
PoppyCorn --> Com tanto tempo vivendo no cenário independente, você aceitaria um convite de um major para fazer parte do cast dela?
Stela Campos: Eu teria que pensar e medir as ofertas. Se me oferecessem gravar no Abbey Road, claro que eu ficaria tentada. Mas sinceramente gosto muito mais da idéia de crescer junto com um selo pequeno, como o Outros Discos, que é um projeto muito legal e bem intencionado.
 
PoppyCorn --> Você acredita que a MPB atual é realmente a música popular brasileira?
Stela Campos: Depende do que estiver sendo considerado como MPB, pois esse é um termo muito vago, que gera confusões. Se for o caso dos Tribalistas, por exemplo, então acho que é música popular brasileira. O que eu faço poderia ser chamado de MPB, conceitualmente falando, pois também canto em português, mas o que geralmente é associado a esse termo diz respeito a artistas que seguem a escola de Caetano Veloso. Quem ouvir meus discos, percebe de cara que eu não faço parte dessa corrente. Então, não sei se faço parte da MPB atual.
 
PoppyCorn --> Se a Stela Campos fosse dona de uma rádio, qual seria a programação?
Stela Campos: Eu tocaria clássicos, novidades, coisas obscuras, de tudo. Seria bem legal ouvir uma programação verdadeiramente eclética, para um público alvo que esteja apenas interessado em boa música. Abriria a programação com "American Eagle", do Bruce Haack, depois emendaria com "Contact", da Brigitte Bardot, "Não Vá Se Perder Por Aí", dos Mutantes, "Diamond Bollocks", do Beck, e por aí vai... Nancy Sinatra, Booker T, Music Machine, Air, Stereolab, Bowie, Isaac Hayes, Gainsbourg, Ennio Morricone, Chico Buarque, Modern Lovers, Nick Cave, LCD Soundsystem, Suicide, PJ Harvey, Aphex Twin, Kraftwerk, Dylan, enfim, tudo o que costuma tocar no hit parade aqui de casa.
 
Mais informações sobre Stela Campos, podem ser encontradas no site oficial da cantora.
27/05/2005
 
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Comentário dos leitores:

e muito interesante o saite
ludmila

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