|
Quando o gatinho resolve sacrificar as vidas sobressalentes que tem, depois de descobrir na noite de núpcias que sua amada possui apenas uma e não sete como costuma ecoar a lenda referente aos felinos, com esse ato, tanto o gatinho quanto a banda, dona da canção a qual remete o clipe-animação “Você Pode Ir Na Janela” - uma das melhores canções surgidas nos últimos anos -, faz um ato heróico e assim o rock volta a fazer sentido para algumas pessoas sempre apaixonados declarados pelo estilo musical.
Sempre quando a vida perde sentido e a solidão toma de assalto, claro, sem permissão em nossas vidas, algo aparece para bombear oxigênio em um corpo vazio, o desfibrilador vem dar choques e fazer pulsar novamente a vida, ao menos no sentido clínico.
A melhor definição de Rock’n’Roll que foi dita até hoje talvez seja do jornalista Alexandre Petillo: “É o seguinte, música, para mim, ainda precisa me tocar, bater fundo na alma. Tem que sentir que quebrou algo no peito, tem que sentir que vale a pena falar sobre, ouvir, comentar. E, ultimamente, o que mais tem mexido comigo vem de perto, muito perto.” Música, indiferente do estilo, tem que ser como arrisca a citação. A banda e, por extensão, seu show que são razão desse texto faz música, muitas vezes poesia, e traduz tudo na forma de rock. O melhor que se faz hoje em dia.
Em um texto na Internet veio a dica “o som deles é um mix de Radiohead-pré-Kid-A com Los Hermanos”. Inevitável ficar indiferente, mas se as referências servem de bússola para orientar o leitor, fica a ressalva: a banda em questão vai muito além delas e, assim como Nietzsche e seu “além do homem", a banda paulista Gram - formada em 2002 com a dissolução da banda Mosva, que homenageava os Beatles - é a versão pop que Nietzsche fez e torna-se a “além banda.”
Enquanto os satélites da grande imprensa musical busca um sinal do radar na música estrangeira - em sua massiva maioria Europa e EUA -, aqui bem perto a banda Gram, que faz parte de uma nova geração de bandas nacionais, movimenta o estandarte do bom rock.
No ultimo final de semana de abril, aconteceu a gravação do mais novo projeto fonográfico “Mtv Apresenta”, que nesta edição deu destaque ao Gram..
Quando as cortinas do Teatro do Colégio Santa Cruz se abriram, ver Sérgio Filho (voz/piano/guitarra), Luiz Ribalta (guitarra), Marco Loschiavo (guitarra), Marcello Pagotto (baixo e voz) e Fernando Falvo (bateria), foi de uma aquecida emoção - lá fora os termômetros marcavam 10 graus na fria e melancólica São Paulo. Com Sérgio ao piano “Sonho Bom”, abriu o show e, desculpe o clichê, a cena tornara-se um sonho muito bom, vê-los ali na gravação de seu primeiro DVD, podendo depois expandir sua música, além, claro, de a música ser muito boa.
“Vem Você” com sua letra triste, quase melancólica fez apêndice para “Toda Luz”, que durante sua execução teve em um telão a projeção de animações, nessa canção mostra-se uma rosa vermelha sendo semeada, regada até brotar, quando a canção chega ao ponto em que Sérgio canta “Bem atrás da casa/ Havia uma linda flor/ Você nem viu” a escuridão toma de assalto a bela animação e a rosa fica quase imperceptível.
Segundos depois a mais furiosa canção da banda - e uma das melhores - “Seu Troféu”, dá sinal nas caixas de som, no telão a rosa plantada e semeada com carinho é pisoteada, ao longo da canção as guitarras são esmerilhadas, Sérgio “espanca” seu piano, na animação segue um andar de pernas esbarrando nos demais, a canção traz ao seu final uma lição de moral, seu vocal e banda sentenciam em uma das mais belas passagens do CD “Seja do Bem/ Não basta ser feliz/ No final, seu troféu vai ruir.../ Faça alguém ser feliz/ Vão lembrar de você ao sorrir.”
A banda presenteou na seqüência do show os presentes com a inédita “Mesmo Assim”, que em certa altura o vocal desabafa “Não mais peço licença para respirar”.
Com projeção de uma bela lua, o clima fazia o convite aos casais apaixonados. Assim como em “Everything´s Not Lost”, balada da banda Coldplay, sentado ao piano Sérgio faz uma versão plus da canção presente no CD, que torna-se ainda mais bela com sua letra em inglês, as dissonâncias de guitarra e a bateria marcada.
Como já dito, a banda Gram é resultado da dissolução de uma banda que homenageava os Beatles e isso fica ainda mais perceptível quando no telão aparece enxertos de imagens contra a guerra do Iraque intercalando imagens de John Lennon. Quando o primeiro dedilhar do piano é ouvido um globo, no centro do teatro, recebe as luzes de dois canhões fazendo os presentes se sentirem em uma fábula pela paz e harmonia da humanidade. Momento único de beleza.
(Pausa para uma digressão. Quando a respeitada revista inglesa Uncut lançou em sua 50º edição uma emocionada homenagem aos Beatles, trouxe junto um CD com covers das mais variadas bandas, esta “Across the Universe” foi cantada pelo grupo 10 cc, que - desculpe a comparação - perde para essa gravação da banda Gram. Simplesmente emocionante! Fim da pausa para digressão.)
A beleza que suplanta o ódio
Nas canções que deram andamento ao show “Faça Alguma Coisa”, “É A Vida” e “Quase Ilusão”, é perceptível além da fúria no instrumental e no vocal um certo ódio nas letras. Na primeira Sérgio canta “Já não sei se é pior com você ou sem/ Quando um jogo era bom/ Você nem me evitou”; na segunda “Eu era bem feliz/ Mas tudo agora é de outra forma/ Você não está aqui/ E tudo agora segue outra norma” e na terceira “Quase pus tudo a perder/ Quando acreditei que você me traria vida/ Ou até calor/ Que tê-la junto a mim/ Faria o tempo passar logo/ Percebi que não”.
Mas é apenas imagem (som) distorcida, passageira e sem aprofundamento, o melhor da banda está nesse intercâmbio entre canções dóceis e outras furiosas, que às vezes trazem desamor. Ou seja, trazem o amor e suas múltiplas conseqüências.
Se muitas vezes algumas concessões são necessárias para se conseguir algo, com a banda não seria diferente, eles fizeram uma versão para “Dias de Luta”, da banda paulista Ira!, no começo da canção a banda demonstra um grande sincronismo e a música vem em instrumental crescente até estourar na letra.
Na ótima “Reinvento” enquanto o instrumental de baixo e bateria faz-se de estrada, Sérgio dança desengonçado para depois cantar “Voltei pra ver/ Mas sem te inventar/ Pra saber se vou chorar/ Voltei pra ver/ Mas sem te inventar/ Ressaber se vai passar”, e termina a música pulando empunhando uma guitarra, assim como um rockstar.
Não há momento mais belo em um show do Gram que não seja na execução de sua melhor música. Quando o telão atrás da banda mostrava o clipe-animação em que o personagem principal é o gatinho todos presentes se levantaram das poltronas e foi instantâneo em coro todos gritarem como um hino particular a canção “Você Pode Ir Na Jenela”, o melhor momento do show mostrando que a beleza suplanta o ódio. Gram ao vivo e tocando sua melhor música torna-se uma coisa muito grande de difícil contenção, podendo ser comparado a um Radiohead tocando “Creep”, ao Coldplay e sua “Yellom” ou até mesmo ao fenômeno nacional Los Hermanos encerrando seus shows com a furiosa “A Flor”. Momentos únicos. Após essa canção a epopéia acaba.
Que esse texto sirva para quando o “Mtv Apresenta: Gram”, chegar as prateleiras em forma de produto não perca a magia e o leitor possa diferencia-lo dos demais que se julgam iguais, mas não são. O gatinho agradece.
Mtv Apresenta: Gram - Teatro do Colégio Santa Cruz (29.04.2004)
01 - Sonho Bom
02 - Vem Você
03 - Toda Luz
04 - Seu Troféu
05 - Mesmo Assim
06 - Moonshine
07 - Across The Universe (The Beatles)
08 - Faça Alguma Coisa
09 - É A Vida
10 - Quase Ilusão
11 - Dias De Luta (Ira!)
12 - Reinvento
13 - Você Pode Ir Na Janela
Bis:
14 - Sonho Bom
15 - Vem Você
16 - Toda Luz
17 - Reinvento
18 - Você Pode Ir Na Janela 02/06/2005
|