Os sonhadores
 
 
Quem procurar enxergar Edukators como obra política pode se dar mal. O filme, dirigido por Hans Weingartner (O Som das Nuvens), discute política, mas não se aprofunda nessa face e nem quer isso, porque o que mais conta aqui é o retrato do desejo de mudança que a juventude geralmente cultiva, mesmo que calada. São ideais que hoje parecem (e talvez sejam) cada vez mais utópicos, minimizados, mas, de alguma forma, relativamente vivos, e talvez isso tenha mais valor do que a execução de tais pensamentos.
Os Edukators do título não ficam calados, buscam deixar a marca daquilo que acreditam. São eles Jan (Daniel Brühl, de Adeus, Lênin!) e Peter (Stipe Erceg - rosto forte, traços retos, ângulos agudos), dois amigos que invadem casas de gente endinheirada para desarrumarem organizadamente a cara mobília e ainda deixar mensagem direta de "conscientização", como "seus dias de fartura acabaram". Não há roubo, tampouco vandalismo. Mais tarde, Julie (Julia Jentsch, meiga), namorada de Peter, descobrirá, por meio de Jan, que os dois rapazotes são os Edukators. Ela entra na roda e a vontade de extrapolar um pouco faz a coisa toda feder; em outras palavras: dono da casa chega e um seqüestro parece ser a alternativa mais viável.
Peter é o mais de boa dos três, às vezes quase encarando a "dupla dinâmica" como mera diversão; Jan leva a coisa um pouco mais a sério; e Julie parece querer fazer parte das ações porque acredita sofrer na pele as injustiças do "sistema" (bateu no Mercedão de um rico e agora tem de pagar, sendo que ela trabalha exaustivamente num emprego que certamente não paga bem). Quanto aos atores, basta dizer que todos estão fodaços, obrigado. O trio é muito bem trabalhado e explorado, o triângulo amoroso nasce naturalmente para redimensionar os personagens, e não somente porque teria que ser assim devido a distribuição dos sexos. Edukators parece caminhar, de certo modo, sobre o mesmo riscado do último Bertolucci, Os Sonhadores.
Ocorrem interessantes embates verbais entre pensamento comunista e capitalista, e também entre ideais do passado refletidos no que - e como - se pensa disso hoje. Ou se algo mudou. Ou se deveria mudar. Pessoas com alma de líder de Centro Acadêmico podem tanto cair de beijos em cima do filme, porque aproveitam qualquer bafinho político para proferir algum discurso chato e fora de hora, como também podem criar sentimento de rejeição pela obra justamente porque a mesma opta por não ser um discurso chato e fora de hora. Edukators pode até enganar nesse sentido quando começa sua segunda metade, quando sai da face urbana e das casas ostensivas para mergulhar num ambiente de campo e sua modesta cabana. A mudança é um pouco chocante, uma espécie "tiro no escuro" que resulta em dois filmes num só. A trépida câmera na mão de Weingartner sabe se comunicar com os dois ambientes, até porque Edukators possui a crueza da filmagem digital, simplicidade que o diretor consegue usar com beleza (ao contrário do digital sujo de Contra Todos, por exemplo, visual muito bom para as propostas de Moreira, é bom dizer).
É nessa cabana onde cada um dos lados opostos defenderão suas idéias. Fantasticamente, o Mr. Dollar (Burghart Klaussner, perfeito) sequestrado pelos jovens não é nenhuma espécie de "antagonista", alguém para olhar e dizer que "é ele o errado". Não, Edukators não é imaturo, e o ricaço é bastante convincente ao defender seu ponto de vista, o que pode ser capaz de irritar qualquer simpatizante de PSTU da vida. Acontecem, ainda, conflitos temporais, sociais e sexuais, além dos políticos. Interessante também é observar como cada lado aparenta ter um pingo de inveja do outro, e a presença do personagem de Klaussner na convivência dos três jovens, somada a uma cada vez mais sóbria Julie, passará a ser um abalo cada vez mais forte na estrutura outrora tão supostamente firme dos Edukators.
O que se vê não é uma defesa de "ismos", e é provável que isso ficasse mais claro caso a metragem do longa fosse mais enxuta (o filme tem pouco mais de duas horas). Weingartner não quer, com seu filme, dizer qual lado da muralha é o melhor, ou qual é o mais "correto". O desejo - mesmo quando utópico (?) - por melhorias é o essencial, esse olhar da juventude é essencial, e o final do balacobaco que Edukators esconde na manga pesa a favor do diretor e sua obra.
 
Filme visto no Cine Lumière durante a
IV Mostra O Amor, a Morte, as Paixões
Goiânia – GO, Janeiro de 2005
26/06/2005
 
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