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Há quase vinte anos atrás, uma banda condensou influências de alguns dos grandes nomes da história do rock, pariu o melhor álbum brasileiro dos anos 80, botou quase todas suas faixas nas rádios, entrou em abertura de novela global, e fez seus integrantes chegarem ao panteão do BRock. O Ira! teve toda uma boa sorte nas mãos, e, digamos, jogou tudo para o alto após seu Vivendo e Não Aprendendo, num dos mais obscuros imbróglios da música nacional. E isso foi em 1986. Desde então, do rock, rock mesmo, fizeram-se órfãos milhares de jovens, que pouco depois já se achavam mergulhados no ocaso do inesquecível momento em que o rock nacional realmente se mostrou firme e forte.
 Corta para 2005. Uma banda condensa influências de alguns dos grandes nomes da história do rock, e dá à luz o melhor álbum brasileiro dos anos 00. Já que as rádios estão batendo cabeça na parede, não vem ao caso esperar por visibilidade, mas é fato: o Cachorro Grande chega ao panteão do (combalido) rock nacional com folgas, e literalmente tem a pista livre pela frente para ser a grande banda brasileira de rock. Rock. O porquê da ênfase no rock: tente puxar pela mente quem fez sucesso de 86 pra cá, e pronto...
“Pista Livre” deveria ser aquilo que todos os fãs da banda gaúcha estão esperando desde seu álbum de estréia, o maravilhoso “Cachorro Grande” (2001), que veio ao mundo um pouco antes que a combinação terninho + guitarra fosse legal novamente. Os fãs de então se assustaram com o hype criado em cima do “As Próximas Horas Serão Muito Boas” (2004), que mesmo com o aval do Lobão ficou devendo na hora de mostrar todo o potencial da banda, devido a um fraco lado A de onde só o quase hit Hey Amigo se salva. Mas o lado B é sensacional... Quando sair em LP, vão revisitar esse disco com avidez.
 Sobre o novo disco: em linhas gerais, é uma continuação melhor produzida do primeiro disco. Mas por que será que tem tanto fã reclamando? Às vezes tem-se a impressão de que a alternativolândia não deseja o bem de ninguém. Os caras não podem se vender, não podem largar o rock, não podem fazer sucesso. O Cachorro Grande não se vendeu, não deixou de ser barulhento, e tem grande chance de fazer sim sucesso, mas acusam até a produção caprichada e a masterização feita em Abbey Road (!) de ter desvirtuado o caráter do quinteto. Precisam ouvir mais a Santíssima Trindade - Beatles, Stones, Who - urgente. O CG nunca será o Strokes (ou Supergrass) brasileiro. A sua homenagem aos mestres é feita do modo mais reverente possível, e sem embarcar em onda nenhuma.
É muito interessante ver como as músicas viajam em direções distintas, que levam a portos seguros, bem conhecidos: os versos empolgados de “Situação Dramática” e “Você Não Sabe o Que Perdeu” trazem a marca registrada do CG, estridente desde “Lunático”; a leveza country de “Eu Pensei” faz ponte com “Enquanto o Trem Que Espero Não Vem”, de ”As Próximas Horas...”; “Longa-Metragem” e “Super Amigo” moderam o clima do jeito que os Stones ensinaram. E o iê-iê-iê desesperado constante em todos os álbuns surge aqui com “Agora Eu Tô Bem Louco”, que junto com “O Tempo Está Do Meu Lado” e “Você Não Sabe Nada” formam a trinca mais furiosa não gravada pela Jovem Guarda.
 Mas ao aportar em praias não totalmente exploradas anteriormente, o CG surpreende, e polemiza. Está certo arriscar em músicas mais radiofônicas, como “Bom Brasileiro”, “Velha Amiga” e “Sinceramente”? Claro que sim, os Beatles fizeram dessas aos montes, e se “Sinceramente” entrar em trilha de novela, como até mesmo os integrantes da banda sugeriram, seria naturalmente excelente.
E está certo arriscar em bases mais dançantes, como nas maravilhosas “Desentoa” e “Novo Super-Herói”? Lógico! Quase sem querer, o Cachorro Grande se coloca lado a lado com Bloc Party, Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs, a vanguarda do novo art rock, ô redundância. Finalmente, deram motivo para serem queridinhos indies para sempre.
O grande momento do disco (quiçá, de todos os três discos) causa ainda mais estranheza. Um quarteto de cordas adornando uma velha canção que existe desde antes de 2001, e que só não havia sido gravada por impossibilidades técnicas - o CG não é uma mera banda suja e barulhenta, não a todo momento. “Interligado” é bela ao extremo, “a nossa Eleanor Rigby”, ou melhor, a “Flores Em Você” deles. Em um rápido bate-papo com o vocalista Beto Bruno, ele falou sobre a possibilidade de se ver esse sonho de música no palco: “só se a gente trouxer os velhinhos dos violinos de avião pra tocar com a gente!”
Se você nunca foi num show do CG, você não sabe o que perdeu. As lendárias quebradeiras agora são somente sonoras, mas o vetusto piano Roads Fender, a Rickenbauer surrada, a energia desenfreada e o repertório irrepreensível só provam que o Cachorro Grande vai atropelar tudo nesse ano. E de lambreta.
Resta saber para onde vai dar essa estrada, velha amiga. 1968? 30/06/2005
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