O meio do caminho de uma banda ensolarada
Por: José Franco
 
 
Muitos dos leitores que acompanham esse espaço já devem estar com o termômetro da paciência chegando a graus que beiram febre, de tanto lerem que o mercado é injusto; as rádios e seus esquemas que excluem talentos; mataram o rock; o pop não é mais o mesmo. Sabemos que tudo isso existe e para quem gosta de música pop é difícil conviver calado, mas o outro lado da moeda mostra que vivemos na época do “faça você mesmo”.
Se o lema é esse e uma “nova” cena roqueira nasce dos becos mal iluminados do grande mercado, Rodrigo Lemos (guitarra, violão, vocais), Eduardo Cirino (teclados, vocais), Raphael Santos (baixo, vocais) e Juninho Jr (bateria), que formam a banda curitibana Poléxia nos faz acreditar que todo esse parágrafo acima é apenas conversa vazia - exceto o lema.
Depois de um EP, um disco ao vivo e batizado a banda com o nome de uma personagem coadjuvante no filme “Quase Famosos”, a Poléxia apareceu para os holofotes ainda em 2004, com o ótimo primeiro disco “O Avesso”. As 14 faixas em momento algum soam chatas ou repetitivas, pelo contrário, soam novas e com guitarras vivas, muitas vezes furiosas. Com dois hits (“Violetas Na Janela” e “Aos Garotos De Aluguel”) lá para o lado do sul, eles agora merecem os dials das rádios nacionais ou apenas o seu play.
Na primeira música “Joystick” (no CD aparece apenas a imagem de um joystick de videogame), as guitarras ditam o caminho, quando entra a bateria e um tímido teclado, depois tudo acalma e acelera, alguém grita “Go!”, então cada instrumento e seus respectivos donos dão o máximo de si e a música quando você percebe já está na cabeça. Mesmo não contendo letra é uma das melhores do CD, então a questão vem: para que letra?
Guitarras novamente aparecem mostrando onde ir em “Polímeros”, o vocal canta “Eu preciso afastar o fantasma do inconsciente e aprender a andar sem me curvar”, a bateria e os outros instrumentos tentam mostrar trabalho, mas as guitarras aqui mandam mais.
“Aos Garotos De Aluguel”, traz um dos melhores versos do CD “Mas com amor é mais caro”, onde o vocalista conta a história do garoto de aluguel que dá título a música, com o baixo e bateria construindo a canção as guitarras ficam em segundo plano até o refrão e até chegar ao fim. Grande canção, de ironia ímpar.
Com um teclado estelar, a bateria marcada e a guitarra cortando a música, o vocal canta “Sem limites como é bom me sentir livre/ Com um céu assim tão virgem/ Que me traz conforto/ Seja onde for/ O que importa é o amor/ Seja você/ Deixa chover/ Olha pro céu, olha pro céu e se esqueça”, em poucos dois minutos “Caloando Estrelas” dá o recado marcado por uma guitarra presente e a música acaba.
A calmaria marca a bela e triste “Melhor Assim”, a letra de Eduardo Cirino e Rodrigo lemos transborda solidão “Me tirem da tomada começou a trovejar/ Às vezes é melhor chorar do que sorrir/ Às vezes é melhor calar e ressentir/ O som cada vez mais alto/ E nem por isso ouvem mais não ouvem mais/ (...) Alguém passou aqui transbordando solidão/ Secando minhas dores que escorrem pelo chão.”, o violão marca toda a canção.
A animada “Violetas Na Janela”, permeada por uma guitarra alegre, bateria pop a letra bonitinha “Diga que a lua dorme sobre o mar/ Prometa que as almas nunca vão secar/ Segure a minha mão quando eu for chorar/ Tenho medo de lá de nunca voltar/ Tenho medo de lá de não te encontrar”, uma das mais pops do CD, seria (será) um hit caso nossos programadores de rádios fossem menos burocráticos.
Na acelerada “Ficar Em Casa”, com guitarras furiosas, bateria forte e vocal quase desesperado o vocal faz uma declaração de amor aos pais e amigos “Hoje era dia de pedir desculpas/ De dizer o quanto eu amo os meus amigos e pais”, durante toda a canção as guitarras ficam no volume máximo, mas soando acessíveis.
Outra calminha “O Caminho Da Quinta À Sétima Quadra”, onde o vocal narra uma possível caminhada – o caminho do título, a letra é belíssima “Fcava a revirar páginas num caminho em que brotavam flores/ Daquelas que sopramos em busca de afeição”, o instrumental com o passar da faixa vai crescendo até estourar, mas nada que faça esquecer a bela letra e arranjos iguais.
Na suingada “Quando A Luz Se Apaga”, as guitarras e o teclado se apresentam, até a bateria chegar e também dividir espaço, a letra versa sobre o amor “E quando te perdi o tombo foi maior/ A luz na área se apagou/ E as frases que eu ganhei já não cabem mais em mim/ Confesso, eu exagerei/ Quando eu brinquei na hora errada/ Mas eu só fiz isso pra te ver sorrir/ Foi pra te ver mais feliz”. O teclado quando aparece traz consigo um sol irradiante. Quando a canção terminar você vai estar cantando junto ao refrão “laiala laiala laiala”, é contagiante.
“De Bem Com A Garota Do Tempo”, parece Teenage Fanclub quando chega ao seu final, poderia ter mais uns dois minutos que seria perfeita.
Enquanto o CD inteiro, ao menos, até agora era ora calmaria, ora uma acelerada terminando em uma explosão irradiante, “12º Vôo” é furiosa, nervosa e com um pouco de ódio. Começa com guitarras distorcidas e um vocal raivoso “Nossa história se jogou daqui/ Como se joga um pássaro/ (...) Eu estava acuado/ Você sempre esteve pronta/ Pra tirar a sua roupa/ E cuspir na minha boca/ E pintar um arco-íris nos meus olhos negros/ Puxar todos os meus cílios numa tortura íntima.” Depois de um jam session, onde as guitarras duelam, a bateria chega ao extremo, quase nada é audível às claras, o vocal grita acelerado “Daqui pra cima eu só vejo o relógio sorridente/ Um mecanismo inteligente/ Que nos comanda é um freio luminoso que reflete dia e noite/ e durante o dia ninguém o percebe”, então o pesadelo acaba.
Contrariando o que foi dito no começo, apenas “Soluço” pode ser descartada desse disco, vinheta desnecessária. “Segue” lembra os momentos mais ensolarados dos Los Hermanos. A canção fala de deixar coisas para trás em busca de um sonho “Um dia de paz vem a calhar/ Um novo olhar nasceu aqui/ Sem pressa”, o belo violão e o vocal terminam a canção fazendo coro.
Mais um belo CD chega ao seu final, a cultura pop e o rock de guitarras continuará a ser o mesmo, mas se belos CDs de bandas simpáticas resolverem aparecer com mais freqüência a vida sofrida do cotidiano agradece. Com essa bela estréia a banda Poléxia mostra ter um longo e prodígio futuro, com esse “O Avesso” isso fica bem claro.
07/07/2005
 
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