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Quando uma banda nacional resolve abdicar de cantar em inglês para na língua pátria fazer sua música, abdica não só da ressonância do inglês - língua normalmente escolhida por bandas menos conhecidas, para na multidão despertar interesse por ser internacional -, mas também de um caminho que teoricamente já foi mais fácil.
Talvez o parágrafo acima seja apenas discurso furado - igual queijo suíço -, porém tem, sim, um fundo de verdade. Era muito mais fácil fazer sucesso em inglês. Essa época já passou, bandas como Ludov, ex-Maybees ou mesmo o Gram que antes fazia celebrações aos quatro rapazes de Liverpool e agora ambas cantam em português são provas disso.
Um novo cenário rock se forma a cada dia, isso não é de hoje, quando vemos o florescer de bandas interessantes esse fato nada mais é do que a colheita de algo que vem sendo semeado há anos, uma outra prova disso foi a receptividade da crítica a "estréia" de Nervoso com "Saudades das minhas lembranças" (2004), elogiado disco da "banda" carioca.
Fazendo parte desses retirantes existe uma banda que chama atenção mais que outras: Violins que em 2003 estreou cantando em português com o ótimo "Aurora Prisma". Agora em 2004, a banda volta com "Grandes Infiéis". A banda lembra em alguns momentos o melhor do Radiohead, tanto nas letras existenciais quanto no instrumental soturno e pesado, mas não apenas isso.
Nessa transição inglês-português a banda se destaca com primazia ímpar. As letras de Beto Cupertino (vocal, guitarra e piano) muitas vezes transformam-se em poesia. Ele canta o cotidiano, as agruras de um relacionamento terminado, as dúvidas existenciais, dialoga com um Deus ausente, as doenças mentais. Sempre as letras são acompanhadas do belo instrumental de Léo Alcanfor (guitarra), Pedro Saddi (teclados e piano), Pierre Alcanfor (bateria) e Timóteo Madaleno (baixo). Ouvir Violins às vezes é desconfortável, porque a banda traz à tona temas que não se vê com facilidade na música pop atual, talvez por isso pode-se dizer que eles não fazem pop, ou rock ou qualquer outro estilo, muitas vezes alcançam patamar de arte.
Em "Aurora Prisma", na faixa "Deus Você" levada por um instrumental pesado de guitarras insanas a letra apocalíptica mostra o mais próximo da relação eu-Ele, Beto canta "Deus, você pode crer: eu nunca fui o filho que você quis". O grande chamariz da banda é, sem dúvida, as letras. Por mais que o instrumental lembre bandas inglesas, o piano acaricie o peito e as guitarras tragam esmerilhadas nas caixas de som, as letras se sobressaem.
Abrindo o CD como um pé na porta "Hans" é guitarra pura onde Beto canta "Aqui é tudo impressão/ Tudo em preto e branco enfim/ É tudo impresso/ Todo relatório te diz/ Que você pode rir agora". Um dos temas recorrentes das composições da banda são as crises pessoais, onde muitas vezes os personagens estão presos em manicômios ou hospitais sempre precisando de relatórios ou palavras para alcançar a "liberdade" física ou espiritual. Em "Il Maledito" é marcada por uma guitarra que em segundo plano dá efeito a canção, a letra fala de contatos com diabos internos "O que me mantém/ É o contato com o inferno."
"Gloria" mais uma música que dá vez as relações em atrito o vocal canta "Prefiro morrer sob o sol do cerrado/ A ter que dizer o que eu tinha pensado/ Sobre os murros que seus olhos pedem", mostrando não haver consenso, antes citando "chuva de sapos", mostra que dos céus pode vir o castigo assim como antes também cantou Wado na música "Tormenta" (olha o nome!) onde a letra faz citação a chuva de sapos do filme "Magnólia" de Paul Thomas Anderson.
A síntese de radiografar os relacionamentos alcança a forma mais lapidada na canção "Atriz", a melhor do disco, onde Beto canta sobre instrumental leve de guitarras, teclado e bateria mostram-se tímidos. Conforme o assunto na letra progride e torna-se mais latente o desconforto de distribuir com os ouvintes suas palavras Beto e banda pegam pesado e tudo o que era delicado se torna fúria, pancada e desabafo a letra entrega "Vai saber quantos corpos jazem sob o seu poder/ Quantos beijos você quis distribuir/ E eu que nunca sei se você pensa mesmo em ser atriz". Esta canção lembra os melhores momentos do disco anterior onde o instrumental em crescente faz par a assuntos pessoais, muitas vezes parecendo mostrar uma espécie de exorcismo, onde os diabos internos são expelidos.
Como o próprio nome já entrega "Ensaio Sobre a Poligamia" discute o jogo de ir e vir quando ainda se está com um companheiro(a), Beto dá a dica de que é preciso ficar atento porque "há câmeras em todo canto aqui", mas a melhor parte é quando cita os clichês que muitas vezes nos confundem mais ainda "Quantos clichês que te falam/ Que você só deve ter quem te torne mais feliz", a guitarra ao fundo faz seu trabalho nos momentos de fúria.
Baladas tem vez no novo CD da banda "Vendedor de Rins" faz esse papel onde Beto canta "Quando eu quis te buscar/ alguém chegou pra me levar", dando tom triste a música. Em "S.O.S." ele canta "Bem mais fácil se eu mentir", lembrando o que a Legião Urbana cantava.
Se na supracitada "Deus Você" a banda flertava com fé e a busca ou ausência do criador, agora em "Angelus" o tema é retomado, mas soando diferente. Utilizando apenas piano beto canta "É simples de ver se há um deus no espaço/ mas eu procurei com os olhos descalços/ e tudo se fez por inteiro em pedaços/ talvez é o acaso que rege o mundo." Belíssima canção para corações sem luz.
Uma calmaria aparece tímida, com um piano delicado, mas esqueça, as guitarras apoteóticas explodem sobre a letra entre o alegre e o triste, esse é o melhor momento da contagiante "Nada Sério". Com jogo de metais e cordas "Ok OK" fecha o disco onde a letra diz tudo "tristeza demais cansa", isso é verdade.
Nesse disco a banda aparece com mais guitarras, ao contrário do anterior onde as melodias e arranjos bem trabalhados marcavam presença, mas em momento nenhum isso aparece em detrimento do resultado final. Se em "Aurora Prisma" as melodias eram a locomotiva nesse "Grandes Infiéis" as letras fazem esse papel acompanhadas de guitarras furiosas. Com isso, a banda consegue unir ótimas letras e instrumental muitas vezes pesado, dando ao CD um som mais rock'n'roll, onde a junção e peso dos instrumentos mostram-se instrumentos para exorcizar problemas internos.
Mais uma vez a música, nesse caso em particular o rock, faz papel de remédio para essa vida tortuosa.
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Ps: Três músicas que estão entre as melhores do novo CD, estão disponíveis para download no site da banda, entre elas a ótima "Atriz". Imperdível. 16/08/2005
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