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 Faltava o prólogo, uma introdução não muito longa e ao mesmo tempo em que iniciasse o leitor, provocasse nele o choque tão peculiar das obras do norte-americano Hunter S. Thompson, criador de um gênero jornalístico (o Gonzo) e que se matou com um tiro em fevereiro, aos 67 anos. Não foi um choque, tendo em vista o ímpeto suicida e auto-destrutivo que marcou sua vida.
Enfim, essa iniciação vem neste segundo semestre com o lançamento no Brasil de Screwjack (Conrad Editora), publicado originalmente em 1991 nos Estados Unidos com o título de Screwjack and Other Stories, e que deveria ter sido preservado na tradução para o português, porque apesar de poucos, os dois outros contos além do Screwjack estão lá.
O livro ganha certa importância agora no Brasil já que é o primeiro lançamento do autor feito após a sua morte. Um movimento ainda que tímido de admiração póstuma a Thompson já é visível. Inusitadamente, as faculdades de comunicação passam a dar mais atenção ao Jornalismo Gonzo, esse patinho feio e drogado perdido entre os manuais de redação e o ensino do politicamente correto ‘para o mercado’ [sic]. A expectativa, senão pelo menos o desejo, é de um incremento nas vendas.
Na contra-capa de Screwjack há depoimentos de amigos íntimos de Thompson como os atores Jack Nicholson e Johnny Depp (sim, o Willy Wonka da nova versão de A Fantástica Fábrica de Chocolate), que já viveu o escritor no cinema na adaptação do marco Fear And Loathing in Las Vegas (traduzido para o português como Las Vegas na Cabeça, em edição hoje raríssima), além de Tom Wolfe, papa do Jornalismo Literário, estilo adotado em profusão por Thompson e por ele tão subvertido.
A pequena publicação (de 78 páginas, 11,5 por 18 centímetros, um livro de bolso por assim dizer) na verdade não é iniciação nenhuma em termos cronológicos, já que é um dos trabalhos mais recentes de Thompson. É sugerido aqui desta forma como um aperitivo ácido, no sentido literal da palavra, para o prato principal que são obras como Hell’s Angels (publicado pela Conrad em 2004) e Fear and Loathing. Além do tamanho, Screwjack também tem preço de aperitivo, menos de 20 reais, e pode ser tranqüilamente degustado de cabo a rabo em até uma hora.
A introdução do livro é uma carta ao editor onde fica registrada uma constante de Thompson além das drogas e do partido tomado pela contracultura porra-louca: a dificuldade de entregar material no prazo, o que tirava o sono dos editores mais corajosos que se atreviam a trabalhar com ele. Em alguns casos, era preciso que o editor praticamente se mudasse para a casa do Dr. Gonzo a fim de acelerar a conclusão de um livro ou reportagem.
Convenhamos que um problema (o prazo) é conseqüência direta dos outros dois (as drogas e a quebra com maestria das regrinhas sociais).
Daí pra frente é só loucura, o que não é novidade. Trancafiado em um dos muitos quartos de hotel por onde passou em vida (até no Brasil o cara já esteve, só que para morar mesmo, passou um ano no Rio), Thompson relata sentado defronte a máquina de escrever a primeira vez que fez uso de mescalina, entorpecente motriz de Fear and Loathing.
Dá-lhe sementes de maconha espalhadas no tapete, a máquina de escrever que assume uma coloração azul brilhante e em que saem fagulhas das teclas, a perda de percepção de partes do corpo e uma vontade insana de molhar a garganta com cerveja.
Morte de um Poeta, um conto (real ou não, quem se importa) sobre apostas e bonecas infláveis antecede o texto que dá nome ao livro, uma lisérgica e inacreditável história de amor envolvendo o autor, que transcorre entre os tapas e beijos, bem ao estilo Thompson. Todo livro deveria acabar assim, deixar-nos boquiabertos e sem rumo. Amém, Hunter. 23/08/2005
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