|
Desde que o rock atingiu seu ponto máximo de evolução em 1973 (segundo Homer Simpson, com o Grand Funk Railroad), o danado foi ficando cada vez mais moribundo, louco por um salvador da pátria, que de tempos em tempos é esboçado na esteira de algum milagre, mas que não dá mais pistas desde 1991. O rock não quer nem saber, mas está enrugado como o Keith Richards, barrigudo feito o Ozzy Osbourne, feio que nem o Iggy Pop. Enquanto isso... o pop consegue se manter viçoso embora tão anfetaminado quanto o roquenrou, sempre bem patrocinado, sempre nos trilhos, gracinha. Devo ter lido isso no NME.
 Ainda bem que o pop não precisa de salvação. Se precisasse, esse certamente seria um trabalho para os New Pornographers! Esse time de super-heróis da cena alternativa canadense reuniu-se pela primeira vez em 1997, num dos poucos casos de superbandas onde nenhum integrante é deveras conhecido: o líder A. C. Newman tocava seu Zumpano sem muito alarde, o Destroyer de Dan Bejar causava pouco interesse, e Neko Case tornava-se um tanto reconhecida no meio alt-country como cantora solo. Mas, a partir da estréia em 2000, com o refrescante "Mass Romantic", a banda começou a deixar de ser apenas um projeto paralelo para seu monte de integrantes. Com o maravilhoso "Electric Version" em 2003, o New Pornographers tornou-se dos pontas-de-lança da então nascente invasão canadense, iniciada pelo Hot Hot Heat e consolidada pelo Arcade Fire. Porém, os dois discos não fogem por si próprios da pecha de indie pop bonitinho: todas as canções são divertidas, cantaroláveis, mas quase todas também acabam sendo bastante fugazes.
 O disco solo de A. C. Newman lançado em 2004, "The Slow Wonder", embicou as influências desse cantor de 37 anos para um lado mais maduro e sofisticado. O que poderia trazer maus presságios sobre o terceiro prodígio dos canadenses revelou-se uma benção: "Twin Cinema" é, além de tudo, belíssimo. Bastante pop, com certeza. E com mais certeza ainda, o único disco pop do bem que você ouvirá com gosto nesse ano, já que o Coldplay patinou bonito.
Como em todo clássico pop, são catorze faixas, catorze refrões memoráveis, (um pouco mais de) catorze ganchos magníficos… Devido à diversidade de instrumentistas e/ou cantores que participam do álbum (nove pelo menos, pelas minhas contas atuais), era de se esperar uma grande fuzarca em relação à amálgama de influências que são ministradas, mas toda a história do twee pop, do indie pop, e, principalmente, do power pop, homogeneíza-se de forma incrivelmente autêntica.
Mas a calmaria de 2004 fez-se ressoar: se antes a banda já se fazia digna de tocar em alguma festinha de The O.C., agora já pode até ensaiar dar um tom melancólico aos finais dramáticos de Smallville. Logicamente, sendo canadense, zero por cento de chances de tal aperitivo, embora mais apetitoso que o Modest Mouse ou The Shins.
"Twin Cinema" chega sem arestas. Todos os instrumentos soam incríveis, sobressaindo os trabalhos notáveis de Kurt Dahle na bateria e de Kathryn Calder no piano. Os vocais, quase sempre dividido por ao menos dois dos cantores, são organicamente perfeitos. Como era de se esperar, a voz de Neko Case continua levando ao paraíso, mesmo soando diferente na bela "These Are The Fables". As dobradinhas que ela faz com Kathryn em "Three Or Four" e "The Bleeding Heart Show" são encantadoras. Outro que também abusa é Dan Bejar, que somente participa dos álbuns e não dos shows: as assimétricas "Jackie, Dressed In Cobras" e "Broken Breads" instigam com sua tortuosidade absurdamente assimilável.
A. C. Newman, o chefe, faz de bobo os fãs de carteirinha. Bondosamente, remete ao "passado" bubblegum na fácil faixa-título e na fantástica "Star Bodies", dona do melhor refrão do ano. Mas depois de atiçar, resolve morder corações com a seqüência "Sing Me Spanish Techno" / "Falling Through Your Clothes". A primeira começa remetendo a alguma FM dos anos 70 e desemboca em um refrão cheirando a folk moderno, belíssimo. O mesmo adjetivo veste a segunda faixa, um tanto soturna, mas com um refrão celestial onde vocais masculinos e femininos se harmonizam sem fazer cerimônia. Destoando de tudo, a louca "Stacked Crooked" fecha o disco mezzo latina, mezzo marciana, e com fecho de ouro.
Apesar do nome, o que menos o New Pornographers oferece é sacanagem. Ótima aposta para a lista dos melhores de 2005? Sem dúvida. Salvação do pop? Menos dúvidas ainda! Precisando ou não... 24/08/2005
|