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Primeiro filme de Michael Bay sem a mão auxiliar do produtor Jerry Bruckheimer, A Ilha é melhor que a maioria de seu pipoco habitual (dois Bad Boys, Armageddon, Pearl Harbor). Não que isso signifique muita coisa. A cada novo filme de Bay, me convenço de que A Rocha será sempre seu melhor trabalho - curiosamente, é o menos lembrado, e talvez isso seja uma comprovação.
 Michael Bay, homem-bomba de Hollywood, parece aspirar algo mais além de seus BUM's e CRASH's ao ser bancado pela DreamWorks (é, agora ele gasta o dinheiro do Spielberg). Primeira hora de A Ilha chega a ser realmente interessante, apostando naquele conhecido visual de um futuro clean que, se não é de todo original, tampouco deixa de funcionar. O filme mescla, sem nenhuma vergonha na cara, vários títulos sci-fi, a maioria já devidamente listada pela revista SET. Obra com semelhanças mais fortes é THX 1138, primeiro longa de George Lucas: ambos os filmes se passam num reduto ultra-controlado por algum "sistema", onde os personagens de nomes codificados não tem contato com o mundo exterior, usam roupas apenas brancas e são proibidos de se relacionar mais intimamente com o sexo oposto. Em A Ilha, tais personagens são clones de ricaços do "mundo de fora", criados e cultivados com a finalidade de dar vida longa aos seus donos quando necessário. Gados para abate; produtos que acreditam na história de que a Terra foi dizimada por uma grande infecção/vírus, e que são sobreviventes alojados num abrigo.
 Como de praxe, Bay confecciona imagens de publicidade de sabão em pó, uma estética esterelizada da qual o diretor não abre mão e que em A Ilha parece ainda mais evidenciada. Nessa espécie de bunker high-tech, há, por exemplo, um sorteio para decidir quem vai para a tal "ilha", evento que é o principal meio de entretenimento e interesse dos clones, como se fosse uma mega-sena, anunciada por mulher de beleza irreal a la propaganda de xampu que trata de vender o local como um tipo de Éden a ser alcançado. Michael Clarke Duncan ( À Espera de um Milagre), ator realmente imenso, protagoniza cena particularmente feliz nesse contexto. Na verdade, os sorteados são justamente aqueles cujo momento de "servir" aos seus respectivos compradores chegou. Duncan, então, protagoniza cena particularmente desesperadora.
Aspecto publicitário é ainda mais forte pelo fato da visão futurista de Bay parecer indicar que todos vestirão Reebok, o X-BOX será o melhor videogame e o MSN Messenger dominará o mundo.
É nesse futuro que Lincoln Six Echo e Jordan Two Delta, interpretados por Ewan McGregor e Scarlett Johansson, descobrirão "a verdade aterradora" - mais graças a Lincoln, clone que vive questionando o sistema pertinentemente, em ritmo de desconfiança crescente. Personagem é interpretado com brilho e interesse por McGregor, ator que, como prova aqui, é capaz de fazer as coisas parecerem melhores do que de fato são. Isso é ótimo, e dentro de um filme de Michael Bay é melhor ainda. A atenção é mais focada nele, que chega a ganhar um momento de puro brilhantismo ao atuar duplamente na tela.
 Quanto a Johansson, nunca esteve tão bela e sensual, finalmente filmada de uma forma que faz jus aos seus atrativos físicos, com roupas brancas meio justas, e faz o que pode num filme que não lhe oferece tanto. De qualquer forma, é interessante ver Johansson, atriz que até então se concentrava em filmes menores ( Mundo Cão, Encontros e Desencontros, Moça com Brinco de Pérola, Em Boa Companhia), embarcando numa grande produção, entre imagens rápidas e alto - muito alto - e bom som. Diferente, o que me lembra do último Festival de Cannes, quando perguntaram a Scarlett qual era a diferença entre trabalhar com Michael Bay e com Woody Allen (a atriz está no último longa de Allen, Match Point). Resposta: "É diferente como assistir aos seus filmes". Isso gerou alguns pensamentos bizarros de minha autoria, como imaginar um típico roteiro escrito para Michael Bay dirigir, mas ser dado para Woody Allen filmar; ou então Allen escrever um roteiro e pedir para Bay dirigir. Só algumas estranhas divagações...
De volta ao filme: A Ilha, então, entra em sua segunda hora, e transforma-se no que se espera de pior de Michael Bay, sobretudo porque o diretor parece estranhamente falhar naquilo que faz melhor e lhe dá nome: estouros e ação. Com exceção da seqüência de uma perseguição que envolve rodas de trem (seqüência surpreendentemente curta; uma pena), Bay parece muito mais frenético e hiperativo que o normal, e acaba compondo cenas convulsionais, planos que se espremem na montagem alucinada, como se quisesse descontar nos últimos 90 minutos a economia de energia de sua primeira hora (aliás, alguém poderia me explicar por que Bay acha que sempre precisa de mais de duas horas pra contar suas historinhas e estourar seus chumbinhos?). Uma balbúrdia só.
 E embora invista em algumas boas piadas (as duas melhores nas costas de Steve Buscemi, bom em qualquer coisa e qualquer papel: uma com traços homoeróticos, outra que chama deus de ignorante), A Ilha entra em ritmo de simplificação irritante, passando a ser um mero e pálido joguinho de gato-e-rato, e, mais tarde, uma briguinha enfezada entre dois homens. Qualquer tentativa de questionar a clonagem também parece se dispersar. É como se Bay chegasse a um ponto e "ei, eu não posso pensar grande, porque meu estilo é pensar pequeno". Melhor exemplo de redução de idéias é a presença de Djimon Hounsou, desperdiçado durante a correria, escalado somente para gritar "GO!" na maior parte de seu tempo, rivalizando com os "RUN!" de McGregor - uma sucessão de falas monossilábicas. Pior, no entanto, é ver Hounsou em papel que, em dado momento, começa a pensar em princípios e tem a "grande sacada" de que talvez quem o tenha contratado seja bandido, e não mocinho.
Enfim, é um Bay consideravelmente acima de seu entretenimento imbecil padrão. E é um estranho filme de Bay, com valores invertidos: interessante quando se comporta de forma mais "suave", insosso e capenga quando decide assumir sua faceta blockbuster.
Filme visto nos Cinemas Severiano Ribeiro
Cines Goiânia Shopping, Agosto/2005 - Goiânia, GO 15/09/2005
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