E agora, mercado?
Por: José Franco
 
 
O novo rock está aí, a cena nacional marca forte presença, aqui na esquina ao lado seja por lojas virtuais ou programas de troca de arquivo de música as novidades chegam com grande velocidade que muitas vezes o melhor não recebe um tratamento devido, porém muitas outras vezes esse melhor nos chega. O editor aqui do Poppy já havia escrito sobre uma banda chamada Parafusa e seu ótimo CD “Meio Dia Na Rua Da Harmonia”, e indicado que uma outra cena, além do novo rock está a se formar, não apenas uma cena musical mas também cultural.
Eis que via correio chega um pacotinho e junto a ele a esperança – para aqueles que ainda acreditam em música, independente do estilo – em um CD chamado “Idem”, talvez um dos mais instigantes lançados nesse 2005, e desde já um CD imperdível, a banda que junto ao CD merece os fones de ouvido ou as caixas de som é a Móveis Coloniais de Acaju.
Antes que o leitor se pergunte sobre o que tem de mais essa banda para merecer tanta atenção e, ainda, se é merecida e mais: afinal, qual estilo ela faz? Cabe aqui uma digressão breve para responder talvez, ao menos uma dessas questões.
Como dito acima, em tempos de interatividade, redações com mais objetos para estudo do que tempo, se faz necessário olhar o que afinal soa diferente em tempos de iguais e, pior, mais do mesmo. Em tempos de revival, rendição perante a industria e projetos que não trazem mais a estampa da criatividade – mas enfim, vendem – é difícil olhar para a tela em branco e tentar enquadrar o objeto em estudo (aqui no caso o CD) em apenas um estilo ou um conceito. Por isso, talvez o leitor consiga nessas linhas apenas uma vitrine do que é o som da banda.
Formada por dez (!) integrantes André Gonzáles (vocal), Fabio Pedroza (baixista), Leonardo Bursztyn (guitarrista), Renato Rojas (baterista), Roberto Mejia (flautista), Eduardo Borém (gaitista e escaletista), Esdras Nogueira (saxofonista), Paulo Rogério (saxofonista), BC (bandolim) e Alexandre Bursztyn (trombonista), mas atualmente com nove – o guitarrista Leonardo Bursztyn vai para Boston, fazer doutorado em Harvard – o Móveis Coloniais vêm de Brasília e mostra que descentralizar os holofotes do eixo Rio-São Paulo assim como pregava o cantor Wado no disco de 2001, “O Manifesto Da Arte Periférica”, é uma boa saída para a mesmice que teima em vigorar em algumas gravadoras e rádios.
“Idem” lançado nesse 2005 e produzido por Rafael Ramos (da Deck Disc) e Phillippe Seabra (da Plebe Rude), traz uma mistura – poderia ser usado aqui os termos clichê “caldeirão de misturas”, “liqüidificador pop” ou “laboratório sonoro”, mas se a banda é diferente porque defini-la com termos iguais? – que falta definição, assim como dito acima esse texto se propõe ser uma vitrine, cabe ao leitor fazer sinapses que venham junto ao som.
Mas se servir como dica há sim grande referências a Los Hermanos (na sua fase mais “pesada” e com forte uso de metais), Pato Fu (com toda sua experimentação dos primeiros discos e um sutil bom humor nas letras) e a melhor das lembranças que o som da banda traz é a semelhança em algumas músicas com o ótimo Mombojo. Imagine juntar as três bandas citadas em um único palco, então seria algo parecido com o Móveis Coloniais de Acaju.
"Acho que os ouvidos estão se voltando para outras vertentes musicais que não somente aquelas de prateleiras de lojas de CD. A arte é construída pela diversidade", declarou o flautista Beto ao Jornal Correio (MG), talvez fugindo de rótulos. Móveis Coloniais pode ser chamada de big band moderna ou uma quase-orquestra, pela diversidade de som ou pela inventividade.
Canções como “Perca Peso” onde há metais no inicio da canção, o bom humor na letra, a jam session no meio da canção com trombone, flauta e bateria; “Seria O Rolex?” que o vocalista com certa fúria lembra Barão Vermelho, o jogo de saxofone dá um swing ou “Menina Moça” onde depois de um “sambinha” no meio da canção um silêncio invade e um dialogo instiga a curiosidade do ouvinte para depois dessa “cena” quase teatral o som voltar em alto estilo e a banda mostra uma de suas melhores músicas, ambas mostram um vigor em trilhar pela experimentação e não seguir o caminho comum do refrão-guitarras-teclado-bateria-refrão reinante no pop.
Em poucos casos a melancolia aparece como em “Aluga-se-vende”, os metais marcam presença e a letra mostra a (leve) tristeza. Mas a grande marca da banda é o bom humor e a alegria no som as deliciosas “Copacabana”, “Do Mesmo Ar”, a hilária “Sadô-masô” mostram muito bem isso.
Seria interessante/engraçado observar o balconista da loja de CDs tentando arrumar o CD da banda. Onde ele colocaria o CD: MPB? Ska? Rock? Pop? E, olhando para si mesmo, perguntar: “E agora, mercado?” A mesma curiosidade aparece quando da audição de outro ótimo disco lançado há não muito tempo: “Nadadenovo”, do grupo Mombojó. Uma ótima comparação em se tratando de bandas nacionais. Fica penas uma pulga atrás da orelha: como será o som da banda ao vivo?
Vitrines são sempre um chamariz, claro, mas muitas vezes mostram um produto que não traz as qualidades que aparece depois da fronteira do vidro. Móveis Coloniais de Acajú foi um dos destaques de grandes festivais como Brasília Music Festival (2003), Bananada (2003 e 2004) e Porão do Rock (2000) e recentemente se apresentou no Curitiba Rock Festival, respeitado festival que já trouxe ao país Weezer e Pixies.
Se a vitrine não mostra tudo o que há de ser do produto em resumo é melhor usar as palavras da banda como em “Menina-moça”: “Eu só queria te dizer o que é preciso não está na cara, mas está na Caras este mês”.
 
01/10/2005
 
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