O cachorro e o coelhosomem
 
 
O animador britânico Nick Park deve ser lembrado pelo ótimo A Fuga das Galinhas, seu primeiro longa (ao lado de Peter Lord) e da Aardman Animation, um sucesso de público que podemos considerar meio inesperado, uma vez que o cineasta utiliza técnica atípica dentro de um mercado em que desenhos de traços tradicionais e, hoje especialmente, animações digitais dominam.
Estilo de Park é o artesanato do "desenho-de-massinha", coisa trabalhosa. Basicamente, são cenários em miniatura construídos para acomodar bonequinhos de massa que ganham vida através de uma paciente fotografia quadro a quadro, a mesma lógica daqueles desenhos que você provavelmente já fez na parte inferior das páginas dos livros escolares, dando-lhes movimento e narrativa com o rápido passar das folhas. Trata-se de um grande exercício de obstinação, digno de respeito enquanto realização e exemplo de fluência cinematográfica.
Wallace e Gromit - A Batalha dos Vegetais acaba por reunir Park e suas principais crias, um homem e seu fiel cachorro, protagonistas de três curtas, dois deles vencedores do Oscar. Aqui, os personagens-título são responsáveis pela segurança dos vegetais de uma cidadezinha cuja principal atração é a Competição de Verduras Gigantes. Lá todos cultivam legumes e verduras em seus quintais, hortas e estufas, e todos parecem contratar os serviços de proteção de Wallace e Gromit.
Wallace, homem da ciência, é um sujeito que, a exemplo de Rick Moranis em Querida, Encolhi as Crianças e outros personagens do tipo, tem invenção pra tudo, hábito que faz dele um sedentário incorrigível. Na história, controla, juntamente com o cão esperto Gromit, o imenso número de coelhos fofos espalhados pela vizinhança, ávidos por alimentação vegetal. No combate a atual praga, Wallace se atreve a tentar, por meio de ondas neurais, anular o comportamento vegetariano dos bichinhos. Dá errado, lógico, e a experiência termina por criar nova e maior ameaça aos vegetais locais.
No que diz respeito aos feitos técnicos, só elogios. Movimentação dos personagens é irretocável, num tipo de filme que nitidamente percebe-se o esforço ao mesmo tempo em que o resultado é apresentado na íntegra. E assim como A Fuga das Galinhas, Park mostra entre suas massinhas que entende de linguagem cinematográfica, modelando o filme com objetos para transições (olhos em especial) e incluindo até uma perseguição que parece brilhar ainda mais pelo fato de ser realizada num sistema árduo de animação. E há, sim, apesar de não muito, humor adulto, com direito a leves conotações sexuais, e também boas investidas na metalinguística revelação consciente de clichês, como órgão trágico numa igreja e relâmpagos nas janelas.
Entretanto, Wallace e Gromit joga a maior parte do tempo no time infantil, balançado por um tipo de humor que hoje em dia exerce pouco efeito sobre mim. Não é nem questão de "saber com o que está lidando", pois existem certas graças absorvidas apenas pela badecagem, e feitas com esse objetivo. Minha apreciação por A Fuga das Galinhas é bem maior devido ao fato deste saber dosar com precisão as duas facetas cômicas. Wallace e Gromit decide pesar para um lado, infelizmente o lado que não me atrai muito.
De qualquer forma, Park refaz de maneira interessante o conto de lobisomem, criatura que desde sexta-feira passada aparece em três títulos distintos em cartaz no Brasil (O Coronel e o Lobisomem e Irmãos Grimm são as outras duas estréias). Aqui temos, na verdade, uma variação nomeada "coelhosomem" (were-rabbit), que Park usufrui ao máximo, dirigindo seu filme como quem reconhece a existência de Hulk e King Kong, entre outras citações. Na caça direta ao bichão, surgem duas das melhores piadas, uma entregando sensualidade a uma bonecona em forma de coelho, com direito a piscada, outra envolvendo súbita interrupção numa briga canina sobre avião de brinquedo.
Por ser filme infantil, somente cópias nacionalmente dubladas no circuito. Entre as vozes originais perdidas nesse processo, Ralph Fiennes e Helena Bonham Carter, dublando o vilão arrogante Victor Quartermaine (referência a Alan) e a sensata mocinha Lady Tottington, respectivamente.
Antes de concluir, importante avisar: embora não tenha me agradado tanto quanto esperava, Wallace e Gromit é trabalho dos mais saudáveis para a criançada, introduzindo material consideravelmente sofisticado e mais elaborado que muita coisa a que o público mirim é submetido diariamente.
 
Filme visto nos Cinemas Severiano Ribeiro
Cines Goiânia Shopping, Outubro/2005 - Goiânia, GO
09/10/2005
 
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